terça-feira, dezembro 14
Amy conseguia ouvir nitidamente a voz de seu pai, como se ele estivesse ali com ela, e o episódio do balanço tivesse acontecendo naquele minuto.A última vez que vira seu pai, Amy tinha cinco anos, ela achava engraçado ainda não ter esquecido da voz dele, apesar de não lembrar nitidamente de sua figura.
Então Amy, sonhando, visualizava perfeitamente aquela cena : jardim dos fundos de sua casa, balanço de pneu, Amy com quatro anos em seu vestido lilás e fita no cabelo chanel, pai e mãe envolta do corpinho estendido na grama. Amy tinha balançado muito forte e caido com força, na sua mão ficara uma das flores que cobriam a corda que sustentava o balanço.
- Abra os olhos, Amy... - a voz tranquila de seu pai dizia.
- Estão abertos! - Amy os abriu de supetão, e depois deu um largo sorriso.
- Não acredito nisso, filha - a mãe estava brava - Você quer me matar do coração ?
- Seja inteligente mamãe, da altura que eu cai, e nessa posição, não teria como acontecer nada mais grave que um braço quebrado.
- Francamente...
E o pai de Amy ria. Ria da inteligência da sua pequenina. Com quatro anos, Amy já sabia ler e escrever e falava pelos cotovelos, como gente grande. Amy sempre gostou de seu pai, ele era um grande influenciador da leitura e dos bons costumes. Era elegante, culto e refinado, mas muito humilde. Ele era demais para sua mãe, por isso que ele a tinha deixado. Amy só não se conformava com o fato dele não vir buscá-la em todos esses anos, para um passeio, ele sempre preferiu as cartas. Deve ser por isso que Amy só tratava de assuntos sérios por cartas.
Amy então abriu os olhos. Acordou tonta, sob o efeito ainda do "sonho-memória" . Em tanto tempo, ela sentiu a falta dele, pela primeira vez, que ela se lembre.
domingo, novembro 14
- Ela quem ? - Amy não entendia.
- Louise. Ela é doce, angelical, meiguinha... meio inocente até, sabe ?
- E desde quando você se apaixona por garotas assim ?
- Eu nunca me apaixonei - Amy estremeceu - Mas quando eu estou com ela, só existe ela... entende ?
- E você me beijou agora por quê...
- Porque amanhã vou pedi-lá em namoro, e não vou nunca mais poder fazer isso.
- Me parece justo - Amy estava revoltada com sí própria.
- Me perdoe. Ela...você vai ver quando conhecê-lá.
Amy sentia seu corpo inteiro se confundir por dentro, seus olhos queriam se encher de lágrimas e ela queria xingar com todos os nomes possíveis todos os seres possíveis, mas ela não poderia demonstrar estar chateada, e este chiliquinho seria infantil demais, então despejou :
- Estou apaixonada por Peter.
- Sério? - ele disse surpreso.
- É claro que é sério.
- Bom...
- Não é sério.
- Posso falar ? - ele assentiu - Ele é um amor, ele é... é ele, e eu estou apaixonada.
- Espero que ele te faça feliz então.
- Qual é, não vamos ficar juntos agora, só porque estou apaixonada.
- Queria saber se mesmo assim, eu posso vir morar aqui contigo.
- Por que não vai morar com ela ?
- Ela mora com os pais. - Ele disse. E Amy sorriu bufando.
- Não seria muito certo.
- Somos adultos. E somos amigos.
- Certo... venha.
- Quinta feira.
- Está bem.
Os dois ficaram trocando olhares por alguns instantes, até que constrangido, Bernardo desviou o olhar.
- Amanhã eu tenho que trabalhar, lembra ?
- Ahh... ok, bom, boa noite.
- Boa noite - ela assentiu.
E ele saiu pela porta vermelha, sem ao menos dizer nada, sem dar um abraço, ou mais um beijo, ou qualquer coisa. Ele simplesmente saiu, e deixou Amy parada aonde estava por um longo tempo. Mas ele não sabia que tinha feito isso. Ele nunca sabia o que fazia com ela.
Ela se deitou, finalmente. Olhou ao redor, e pegou instantaneamente no sono.
segunda-feira, novembro 8
- Prometo que não passará de quinze minutos de atraso.
- Acho bom - ele ria.
E logo Amy já estava virando a rua que Peter estaria. Ele estava de calça jeans escura e camisa xadrez cinza e preta , ofuscada pela sua jaqueta muito sedutora. Estava com uma rosa na mão, olhando pra ela, enquanto batia os pézinhos, sentada no banco da praça, a espera de Amy. Ela sorriu.
- Que elegância, moço. - Ele ergueu os olhos sorrindo, e ela retribuindo...
- Pra você - ela recebendo a rosa, deu mais um sorriso, tímido dessa vez.
- Muito obrigada, ela é linda.
- Não vá pensar que eu estou tentando te impressionar, e dar uma de romântico pra te conquistar, eu nem sei se você gosta disso, é que eu sou assim e ... - ele tropeçava em suas próprias palavras.
- Vamos caminhar - ela ofereceu o braço, ele aceitou.
E eles caminharam conversando e reparando sempre em coisas pequenas. Como um arbusto que parecia um cavalo, ou uma determinada estrela mais brilhante, nas pessoas e como elas eram. E eram 21:58 quando estavam na porta do apartamento dela.E Amy sorriu ao ver quem estava lá.
- Só pra ver se ele cumpriria o horário - ele riu
- Não sou uma menininha que tem que ser vigiada, Bernardo - ela revirou os olhos
- Quem é ele ? - Peter perguntou , não entendendo nada.
- Meu amigo.
- O melhor amigo - ele piscou - de-la.
- AAAh sim, muito prazer. - ele ofereceu a mão. Bernardo recusou.
- Pode voltar agora Bernardo, já estou aqui e são exatamente 22h.
Bernardo conferiu no relógio de bolso. Olhou Peter de cima a baixo.
- Quero falar com você, Amy. E não dá pra esperar até quinta, tem que ser agora.
- Certo - Amy virou-se para Peter - Obrigada pela noite ma-ra-vi-lho-sa, eu me diverti muito e espero que possamos fazer isso mais vezes.
- Claro que sim. Boa noite. - Ele a beijou suavemente nos lábios, rápido, frio, um selinho de criança.
Amy sorriu. Bernardo revirou os olhos discretamente. Peter foi andando e acenando.
- Que baba-ca - Bernardo bufou.
- Não fale assim dele.
- Amanhã ele vai estar aqui com uma bandinha e vai fazer uma serenata pra você.
- Para de ser ciumento. - ela deu um tapinha em seu ombro.
Eles riram e subiram as escadas.
Amy já estava acendendo a luz quando Bernardo a abraçou por trás e a virou para dar um suculento e longo beijo. Amy só conseguia continuar de olhos fechados , estremecida, retribuindo o beijo. Mas finalmente ela se soltou.
- O que foi isso ? - Amy dizia nervosa enquanto corria para fechar a porta.
- Eu precisava. (pausa) Assim como preciso de contar uma coisa.
- Pois estou ouvindo.
- Estou apaixonado.
- O que ? - ela disse surpresa.
sábado, setembro 25
- Alô ? - disse Amy suavemente
- Você precisava ver isso aqui.
Ela conhecia sua voz muito bem. Ela tremeu.
- Isso o que?
- Londres nunca teve um cinza tão brilhante como esse de hoje.
- AAH, isso eu poderia ver da minha janela, esqueceu que eu ainda estou em Londres ?
- Desculpa não ter ligado antes.
- Não se preocupe, nem deu pra sentir sua falta na correria desses dois dias.
MENTIRA. Amy tinha sentido e muita, mas ela nunca confessava. Ás vezes ela se perguntava se isso era a coisa mais certa a se fazer, vai ver que ele nunca se expressava porque ela não se permitia expressar.
- Correria ?
- Tinha umas coisas a fazer.
- Claro... quer sair amanhã ?
- Tenho planos para amanhã, desculpe.
- Que tipo de planos ?
- Vou sair com um amigo.
- Mas amanhã é terça feira!
- E daí? - ela aindava tentava ser fria para esconder sua frustração pela demora do telefonema.
- Você vai trabalhar na quarta, não deveria ficar até tarde fora de casa.
- E qual é a diferença de sair com ele ou com você ?
- Eu sempre te trago em casa ás 22h em dia de semana.
- Não será diferente com ele.
- Então tá - ele desistiu. E Amy odiava quando ele desistia.
Amy surprendentemente não estava se sentindo tentada a dispensar seu amigo por Bernardo, na verdade ela estava muito empolgada para sair com Peter, ela amava sua companhia doce e eles iam simplesmente andar pela cidade e comentar sobre as coisas que veriam.
- Tudo bem com você ? - Amy perguntou.
- Sim, e com você ? - ele prolongou o 'cê'.
- Tudo como sempre.
- Vou desligar. Se divirta amanhã.
- Vou me divertir - ela sorriu.
- Queria te contar uma coisa, na quinta eu passo por aí.
- Quando você vai vir definitivamente pra cá? Não ia ser nesse fim de semana ?
- Eu falo sobre isso também, na quinta.
- Está bem.
- Um beijo, amor.
- Beijo.
Puft. Desligado.
Amy suspirou e retomou o raciocínio , como de costume, Amy trabalhava em casa na segunda e só as terças ia para o escritório. Com o novo escritório teve que abandonar seu trabalho na floricultura, mas ela não o abandonou por completo, trabalhava lá toda quinta de manhã e tirava o resto do dia de folga de tudo.
Para evitar tantas indas e vindas e tantos gastos desnecessários, Bernardo ia se mudar para o quarteirão vizinho, para o apartamento de Amy, que passaria a ser deles. Apesar que agora suas visitas haviam diminuido significativamente. Não eram mais seis dias por semana e duas vezes ao dia, eram três dias, e uma vez só.
sábado, setembro 18
Ela queria dizer pra ele o quanto ela se importava, o quanto ela queria fazê-lo feliz, o quanto ela ficava ferida quando ele ia embora pela manhã, quando ele esquecia de coisas importantes, ou quando a tratava indiferentemente, mas ela não queria parecer sensível.
Mas Amy era a culpada de tudo isso, ela que se deixava enganar, ela que não rejeitava seu beijo, seu sexo, sua vida perto da dela, porque ela queria isso.
E por mais que Amy se sentia triste em não te-lo o tempo todo, e não ter a mesma importância pra ele, a mesma que ele tinha para ela, ela se sentia feliz por ele ao menos estar com ela, não por completo, mas o suficiente.
E por mais que Amy tinha raiva das moças com quem ele dormia, e de ela não ser a única, consequentemente, Amy não se importava com isso.
Ela não queria ser amada incondicionalmente, nem viver uma vida feliz com Bernardo, nem ser só dele, e ele só dela, ela só queria, que ele se importasse com ela, como ela se importa. Só queria ser verdadeiramente especial e verdadeiramente necessária.Ela queria ser, literalmente, a melhor amiga, e não mais uma garota com quem ele transava e magoava.
Ela o amava como amigo, simplesmente isso, por mais que não parecesse.
sexta-feira, setembro 3

- Que seja.
sexta-feira, agosto 27
terça-feira, agosto 24
sexta-feira, agosto 20
sexta-feira, agosto 13
Quando não era ela que acabava, ela tinha apenas, dois minutos de surto, pós-termino de relação.
Ela era madura, equilibrada, nunca pirava.
Atualmente, Amy estava num relacionamento de duas semanas e meia com Jonathan Math , o rockeiro desocupado.
Ele era dono de um lounge , cujo único intuito era expor suas composições para um público rebelde, bêbado , e sem futuro. Mas ele era bom no que fazia.
Já faziam três meses que ele mantia a tradição de mandar um beijo pra ela, do palco, toda vez que acabava de cantar, nas três vezes por semana.
Amy gostava do modo que ele descrevia o cabelo dela.
Mas agora, Amy estava tendo uma discussão com seu namorado J.M. , uma típica discussão :
- Você não me liga. Você não liga, pra nada do que somos. Você está brincando de relacionamento, ou sei lá o que...Eu morro de desejo por você , e até agora, não transamos nenhuma vez e...
- Espera aí, o que ? Então você só está interessado no meu corpo, e é por isso que estamos terminando, não porque eu não dou valor a nossa relação!
- Eu não disse isso!
- Você está agindo como se eu fosse uma garotinha boba que não soubesse nada sobre homens e relacionamentos!
- Seu problema é que você pensa que sabe de tudo, Amy.
- Eu sei de muita coisa, mas não vem ao caso! Quem não quer nada agora, sou eu!
- Ótimo.
- Ó-timo.
E então ela bateu a porta do carro velho de John , e saiu do carro em direção a sua casa, como se estivesse dançando alegremente. Sorridente e livre novamente.
Amy entrou na prédio, distribuindo cumprimentos para todos que encontrava pelo caminho, como se tivesse sido um dia perfeito, subiu para o seu quarto, e pois seu vestido mais provocante.Ela nunca o usava. Ele parecia mais uma lingerie fantasiosa , do que um vestido. Suas coxas ficavam a mostra, alem do decote que realçava seu busto, que não era grande coisa.
Pois agora, Amy estava parecendo com uma garota de programa refinada , andando pelas ruas de Londres, contente e saltitante, em direção ao seu lugar predileto.
Engraçado como as atitudes mais maduras de Amy, soam ser as mais imaturas. Eu não entendo , e nem você deve entender, leitor, mas Amy entende, e é o suficiente. Mas mais engraçado ainda, é Amy estar desse jeito, sentada em uma mesa de biblioteca.
quinta-feira, agosto 12
Amy II
Após cantarolar pelas ruas de Londres , sentir-se livre , cumprimentar pessoas desconhecidas, pensar no garoto que nunca mais veria, se preocupar e voltar a sensação de frenesi de liberdade, Amy seguiu seu caminho seriamente, a procura de um lugar pra ficar.
Não me pergunte como Amy burlou as leis britânicas, e conseguiu um lugar na pensão Manfred's pela metade do preço , como conseguiu se manter livre de interrogatórios e alimentada, aquecida e empregada na floricultura do seu novo bairro. Incrível como floriculturas fazem parte da vida de Amy.
E nesse tempo, Amy fez 2.177 refeições , leu 240 livros , deu 220.273 sorrisos , e chorou incríveis 3 vezes. Amy conheceu 739 pessoas, mas só gostou realmente de quatro :
O Senhor Manfred , dono da pensão. Ele tratava sua mulher como uma princesa , e sabia um pouco sobre cada coisa que pudesse existir. Ele sabia de filosofia, de física, de culinária, botânica e outras coisas mais.
Sua companheira da faculdade de moda. Elas se conheciam a pouco tempo, mas sua amiga Jenny sabia bastante do assunto para conversar com ela, por longas horas.
Peter Covolan. Ele morava na pensão também e era completamente apaixonado por Amy, deixava uma florzinha todos os dias, na caixa de recados da porta do quarto de Amy. Para retribuir, Amy arrancava uma petála e colocava na caixinha da porta dele. Ela ficava lisonjeada pelo jeito que ele sorria ao vê-lá, mas detestava não poder corresponde-lo. Ele era doce, sensível as coisas boas e sentimentais da vida, sem perder sua dose necessária de inteligência e maturidade.
E por último, a senhora Lucyle. Ela ficava todos os dias , sentada no banco que ficava em frente a pensão, dando comida para os passáros e rindo para o nada. Amy gostava disso.
_
Pois se passaram dois anos, e agora Amy, não era mais uma garota de dezesseis.Era uma mulher de dezoito anos e meio. Era forte e independente.
O único contato que Amy tinha com sua mãe era por cartas, desde então. Frias e sem endereço ou telefone. Amy não sentia falta dela, ou pelo menos , fingia que não sentia.
Já com sua irmã, era diferente, elas já se viram oito vezes. Amy mandava um bilhete pelo correio endereçado a casa da amiga dela, com um local de encontro. Sua irmã nunca contou nada sobre esses encontros.
Mas algo sempre muda a vida de Amy,e algo sempre a tira da rotina, de vida estável.
Mas leitor, se não fosse assim, não seria uma vida.
sexta-feira, agosto 6
Amy andava , livre , respirando, viva , Amy. Ela com ela mesma.Ela sendo ela mesma.Sonhando com ela mesma.Respirando o ar Amy.
Pensava em todas as coisas, em todos os detalhes, nas pessoas que passaram pela vida dela que agora ela provavelmente iria demorar muito tempo para rever. Mas ela não estava triste, ela se sentia livre pra fazer qualquer coisa, longe de todos os que a deixavam confusa.Ela não estava mais confusa.
Amy cumprimentava as pessoas que passavam, com um sorriso no rosto, como se derrepente gostasse de pessoas.
Mas nenhuma felicidade , por mais feliz que seja, dura para sempre, e Amy começou a pensar em aonde durmiria , se ia ficar pra sempre comendo em lanchonetes ou conseguiria seus objetivos, de ser uma estilista conceituada sem ser considerada fútil.
Ela sabia muito bem que nunca mais ia ver Brand, Lorena, e o pior : ela nunca mais veria o menino de nome desconhecido, que ela sentia tanta curiosidade de conhecer, tanta vontade de se aproximar e tanto medo do que tudo isso puderá ser.
Amy cheirava as flores que encontrava, olhava pro céu, e sentia diversos perfumes, e via diversos rostos, e sentia diversas sensações , mas nenhuma era tão boa , quanto a sensação, de estar livre.Completamente livre.
quarta-feira, agosto 4
Não deu tempo nem de Amy chegar até a sacada e impedi-lo. Ele entrou no quarto, a segurou pela cintura e deu-lhe um beijo rispidamente, que não demorou muito, só um pequeno impacto, porque ela não queria.
E aquilo foi a gota d'água. Ela nunca se sentiu tão traída, tão furiosa.
Ela o empurrou, e não disse nada, só o fitava com um ar de indignação, ela não o reconhecia.
Só que como mal entendidos , são tão comuns como resfriados e coisas piores, mas não tão piores quanto mal entendidos , a mãe dela tinha que entrar , por aquela porta, bem no momento em que Amy já estava quase totalmente despida, com um menino cheio de desejo, em seu quarto.
Pronto, um super mal entendido, nem preciso dizer mais nada, querido leitor.
Depois de uma discussão horrível , Amy estava triste, impressionantemene triste.
Triste com seu melhor amigo e sua falta de respeito, triste com sua mãe e sua falta de confiança, triste com ela e sua falta de imposição contra tudo, triste com tudo.
Quando os dois finalmente a deixaram sozinha, ele envergonhado e sua mãe decepcionada, ela tomou uma decisão importante.
Na verdade, era uma decisão imatura, a remetia a uma adolescente rebelde. Mas , talvez era madura, afinal precisa de coragem e determinação, pra fugir de casa.
sábado, julho 24
Ao chegar em casa, Amy encontrou sua mãe ao telefone. Parecia uma adolescente , tagarelando com a amiga. As vezes, Amy se sentia mais madura que a própria mãe de quarenta anos. Engraçado como as coisas se contradiziam, nesse aspecto : Amy era tão menina , e tão mulher ao mesmo tempo.
Sua irmã já estava dormindo, milagre , não eram nem oito horas , ela deveria ter passado o dia pulando por aí. Amy foi até a cama da pequena Jane , e deu-lhe um beijo de boa noite na testa.
Então caminhou pelo corredor até seu quarto , Amy estava cansada. Sentou na cama e soltou alguns suspiros, mas logo já estava de pé. Ligou o chuveiro e foi olhar a janela , ela adorava fazer isso.
Começou a despir-se , lentamente, peça por peça : as meias três quartos de algodão , o jeans , o casaco , o cachecol , a blusã de lã... E quando Amy ia tirar, a penúltima blusa , sim , estava muito frio nesse dia, tipicamente frio, algo a parou. Um barulho vindo da sacada.
Ela paralizou. Não sabia quem poderia ser , um gato talvez, ou um passáro, ou só um galho. Mas poderia ser tambem um maníaco, um assaltante, um fugitivo... Como ela poderia saber ? Por isso aconteceu o seguinte : Paralização. Olhar superficial. Depois Amy pois o roupão , pegou a tesoura afiada que ela usava para desfiar suas roupas e seu cabelo de vez em quando e foi , calmamente , sorrateiramente, em direção a sacada.
quarta-feira, julho 21
- Quem são eles ? - Amy gesticulava a cabeça pra a casa esquecida, logo, para a família.
- São uma família rica da cidade vizinha , parece que eles vão transformar a casa velha em uma espécie de lar para o garoto.
- Como assim ?
- Eles nunca foram de dar muita atenção para o menino, ele já está quase com 18 anos e não se importa mais com essas coisas de família , então ele vai se mudar para cá.
- Sozinho? - Amy não estava acreditando.
- Parece que uma governanta vai ficar com ele nos primeiros meses, pra ele se acostumar com o bairro e pra justiça não alegar abandono de incapaz, sabe como é né, Amy ? Ele é menor de idade.
Dona Dolores estava toda empolgada, adorava uma fofoca.
- Entendo... E você sabe o nome dele ?
- Não sei, querida.
- Bem...
- Você não está interessada não, está ? - ela interrompeu.
- Claro que não.
- Ele até seria uma boa companhia pra ti , ele sempre está com um livro na mão. Mas segundo boatos por aí , ele usa as garotinhas como se não tivessem nenhum valor.
- Não confio em Boatos. Mas não estou interessada. Vou indo Dona Dolores , obrigada.
- Obrigada você , pequena.
E um beijo na mão de Amy, foi dado como despedida.
Amy tinha que pensar sobre isso tudo, e era informação demais , por isso correu para a biblioteca, o lugar que ela mais gostava.E também foi para se encontrar com Lorena, que estava muito sociável com ela ultimamente. Isso a incomodava muito, elas nunca foram amigas e nem tinham nada em comum pra que isso fosse, um dia, possível.
Amy sempre foi muito indiferente para amizades, ela preferia ficar isolada o resto da vida, a ter que participar de círculos fúteis, porém sempre foi muito simpática com todos, na medida do possível.
segunda-feira, julho 19
- Qual é Brand ? Vai ficar mesmo parado aí olhando pros morangos com essa cara de bobo ? - disse Amy, interrompendo os pensamentos fantasiosos de seu amigo apaixonado.
- É que eles parecem suculentos...
- Pois são feitos para comer, felizmente!
Ele sorriu , já sentado ao lado dela.
- Que bom que está tudo normal com a gente !
- Para com isso, Brand. Até parece aquelas garotinhas inseguras!Já disse que sempre vai ficar tudo bem, caso você pare de falar disso, é claro. Aliás , Lorena sabe que está aqui ?
- E desde quando ela se importa com o fato de eu passar a maior parte do tempo com você ?
Amy olhou de lado , balançou a cabeça e riu contidamente.E fez se silêncio por alguns longos segundos.
- Hey, e aquele nosso passeio pelo bosque ? - disse Brand.
- Você já reparou que aquela família não saí mais da frente daquela casa, aquela esquecida pelo mundo ?
Brand abaixou a cabeça , disfarçando o descontentamento por ela ter ignorado sua pergunta , que era realmente importante. O passeio no bosque era quase uma tradição, se não era.
- Que família ?
- Não sei quem são, mas não saem mais de lá.
- Nem reparei.
- Pois deveria!
- Te incomoda ?
- Sabe que eu sou curiosa.
- Sei. . .
Amy sorriu novamente. E os dois passaram o resto da tarde, conversando e comendo morangos de rostos deformados de chocolates. Amy rindo. Brand se apaixonando.
Mas a noite chegara , e ele tinha que ir.
Ele foi , Amy se deitou. Deitou. Sonhou. Acordou.
-
O sol já brilhava há algumas horas , quando Amy calçava os chinelos.
Rotina da manhã : Calçar os chinelos. Olhar o céu. Olhar no espelho. Escovar os dentes. Deixar a pasta dental aberta. Tirar a roupa. Ligar o chuveiro. Tomar Banho. Por a roupa. Dar comida para Donahu. Sair, para absolutamente qualquer lugar.
Amy era uma garota de planos, ás vezes, quando a rotina ordenava isso.
E passando pela rua , cantarolando, Amy viu a família desconhecida em frente a casa.
Eu sei leitor , você quer saber o que eles tanto fazem lá , eu sei como é , Amy sente essa ansiedade também.
sexta-feira, julho 16
Hoje é dia de Conto de Amy . . .
Ela chegou em sua silenciosa casa, já que sua mãe passava a maior parte do tempo fora, sua irmã caçula praticamente morava na casa da amiga e seu pai só se comunicava através de cartas, há um longo tempo.
Pendurou seu casaco uva, e sentou-se na beira da cama, ela já ia começar a tagarelar com sua amiga mente, quando o telefone tocou, e não foi preciso nem o segundo toque para que ela o atendesse.
- Alô ? - disse Amy , frenética.
- Amy ?
- E quem mais seria ? Você não ligou pro meu número ? - ela mudara o tom de voz.
- Já vi que tem alguém de péssimo humor hoje. . .
- Não estou mal humorada.
- Posso passar aí ?
- Se é isso que você quer , venha.
- Você disse que nada mudaria entre a gente...
- Não mudou, Brand. Só estou confusa, não provoque.
- Como se fosse novidade você estar confusa - pausa - Chego em dez minutos.
- Como preferir. Um beijo.
- Tchau Amy.
PUFT. Ela colocou o telefone na base sem delicadeza.
Já era sabido de todos que seu melhor amigo, Brand , o filho dos donos da confeitaria chique do bairro, bonito mesmo com os óculos, inteligente e único para Amy, estava apaixonado por ela. Até sua própria namoradinha, Lorena , uma loira de peitos grandes , sem tempero nenhum, já sabia. Mas quem disse que ela se importava muito ? Lorena era fria , indiferente.
"Amy , você é diferente de todas , e sabe disso. É a única com quem eu consigo falar sobre qualquer assunto imaginável, é tão doce, tão madura e segura. Ao contrário das outras, você não usa decotes ou saias curtas, mas sua blusa preta de um ombro só e o seu jeans sujos dispertam em mim, os mais altos sonhos. O jeito que você leva a sua vida, e está sempre radiante, seu gosto refinado, e sua inteligencia... eu te amo por que..."
Ele foi interrompido por Amy.
Parece até regra o melhor amigo se apaixonar pela melhor amiga, transformar tanta afinidade e ombro amigo em um amor. É até chato isso ter ocorrido com Amy , cansa seguir protocolos de romances, mas o que eu posso fazer ? É minha função narrar a vida de Amy , mesmo antes de ela ter uma importância tão grande, ao ponto de precisar de um livro.
Essas foram as palavras apaixonadas que Brand disse para nossa doce Amy. Sem dúvida eram palavras encantadoras , e fariam qualquer adolescente desesperada por um relacionamento, ficar "apaixonada". Mas essa era a diferença: Amy não era qualquer adolescente, não estava desesperada e nem tampouco interessada em "se apaixonar", havia coisas mais importantes para Amy pensar.
TOC TOC.
- Amy, posso entrar ?
- Está aberta, Brand.
E nesse instante, Brand viu a cena mais apaixonante de sua vida e sem nenhum propósito por parte de Amy.
_________________________________________ *
quarta-feira, julho 14
E era tanta coisa passando pela cabeça de Amy, que ela própria estava confusa.
Ela estava em um dia esquisito, reparava em tudo e tudo fazia algum sentido pra ela.
Por exemplo, Amy achou curioso o jeito que as folhas caiam da árvore, e ficou se perguntando se as leis da física não estariam mais certas do que a sua fé. Se o mundo em que vivemos, simplesmente acabará um dia ou perpetuará. Se o amor existe, ou se o povo que confunde as coisas.
Por que aquele Senhor do 430, matou a esposa, depois de tantas juras de amor e de tanto tempo juntos ? Será que no presídio, aonde ele iria passar tanto tempo, as memórias das coisas boas que ela fez pra ele, o fariam se arrepender ?
Por que o seu melhor amigo , confessará que a ama, se tem do seu lado uma namorada tão atraente, inteligente e outras coisas mais ?
Por que as pessoas magoavam umas as outras ? Ou por que o clima estava tão variante ?
Essas perguntas, ela sabia que nunca iria responder, por isso deixou as de lado.
Ficou mais interessada, em coisas que ela poderia esclarecer rapidamente, sem filosofar e sem perder tempo em vão, afinal de que adiantaria se ela tivesse essas respostas ?
Por isso, ela mudou o foco, e agora se perguntava :
O que a família , daquele garoto que ela via as vezes perambulando as ruas de sua cidade,estava fazendo na frente daquela casa antiga, praticamente abandonada, há tanto tempo ?
E por que diabos , um garoto que deveria estar caçando meninas por aí, estaria agora lendo , compenetradamente o livro preferido dela ?
Por que ela sempre reparava nele ?
Ela queria saber disso, queria muito
_________________________________________________ *
domingo, julho 11
Conto de Amy.
I
Amy era uma garota típica de dezesseis anos, uma bela menina de dezesseis. Ela não era nem um pouco alta, mas também não era a mais baixa da turma.
Ela não tinha olhos claros, mas os seus pretos eram valiosos. Amy não tinha cabelos lisos, mas adorava suas ondas. Não tinha muito dinheiro, mas não se importava muito com isso. No colégio, Amy tinha muitos pretendentes, mas não gostava de nenhum deles. Tirava notas excelentes em todas as matérias, mas não se gabava disso. Sua mãe era perfeitamente bela e jovem, mas ela não roubava seus saltos e sua maquiagem, nem tampouco se inspirava nela.
Amy gostava de ler, de tomar banho de chuva, de dias frios para passar todo o tempo embaixo de seu cobertor velho, ela gostava de coisas velhas. Amy adorava seu gato de pelo caramelo, Donahu. Adorava histórias de amor, morangos com chocolate na companhia de seu melhor amigo, também adorava passar o dedo na cobertura do bolo dos outros e andar de bicicleta jogando pétalas de flores ,já caídas , pelo caminho, ela nunca arrancava uma se quer.
Amy amava conversar consigo mesma. Mas, o que mais Amy amava?
Isso nem mesmo Amy sabia.
-
Há alguns quilômetros de distância, havia um garoto, de dezessete anos.
O garoto tinha olhos combinando com o cabelo bagunçado, um aspecto físico mediano , dentes perfeitamente brancos. Ele não era muito forte, nem extremamente belo ou popular, não saia por ai vadiando, nem tirava notas ruins, pelo contrário. Nunca dava problemas na escola.
O garoto gostava de ler, de andar por aí, de resolver problemas insolúveis, e de colecionar selos. Adorava sua facilidade em fazer amizades, e os frutos disso. Adorava chá da tarde com bolo de cenoura e de espantar os pombos sutilmente, maduramente.
O que o garoto amava? Provavelmente nada e ninguém, nem quaisquer coisas amáveis.
Agora você me pergunta, caro leitor: Haveria alguma relação entre nossa querida Amy e esse garoto até então desconhecido?
Ora leitor, eu sou simplesmente o narrador, e nada sei. E se soubesse, não quero
revelar-te agora. E se quisesse, não poderia.
Se quiseres mesmo saber, continue lendo este tão infeliz escrito. E se não quiserdes, continue mesmo assim, já que começastes.
________________________________________________ *
"Conto de Amy" . Wrote by Bruna Alves.
quinta-feira, julho 8
Ela , tão destemida e avoada. Ele , tão apreensivo e calado. Mas por que ? Ele era o insensível , ela era a mocinha apaixonada, por que os papéis estariam invertidos agora ? Será que ele tinha medo de magoar, sua pequena, mesmo sem querer ? Mas havia motivos pra isso ? Ela parecia tão despreocupada, que ele não sabia se ela era tão inocente ao ponto de não entender o que estava prestes a acontecer, ou se ela nada sentia, nada o suficiente pra não se importar.
- Você não está com medo ? - Ele disse, no momento em que ela abria a porta do apartamento.
- Medo de que ?
Ela tentava ter equilíbrio para se virar pra ele sem o tocar. Os fatos não colaboravam com isso: Escada estreita, florezinhas ao redor , uma proximidade intrigante por parte dele.
- Eu vou subir essa escada com você. Sabes disso , não é ?
- Pode fazer o que quiser comigo. Pode subir essa escada agora , dizer que me ama mais que tudo e eternamente, fazer amor comigo e ir embora pela manhã, que eu nem vou ligar.
Ela queria tanto parecer forte, mas seus olhos a entregavam, a dúvida era só se ele saberia ler.
Ele não sabia o que dizer e nunca tinha sentido aquilo. Na verdade, nem conseguia sair do lugar.
- Vai subir ou não ? - Ela finalmente interrompeu seus pensamentos.
E com um balançar de cabeça, ele concordou e subiu os degraus, contemplando a leveza dos passos dela. E era ele quem estava com medo agora, definitivamente.
_____________________________________________ *