terça-feira, dezembro 14

- Abra os olhos, Amy.
Amy conseguia ouvir nitidamente a voz de seu pai, como se ele estivesse ali com ela, e o episódio do balanço tivesse acontecendo naquele minuto.A última vez que vira seu pai, Amy tinha cinco anos, ela achava engraçado ainda não ter esquecido da voz dele, apesar de não lembrar nitidamente de sua figura.
Então Amy, sonhando, visualizava perfeitamente aquela cena : jardim dos fundos de sua casa, balanço de pneu, Amy com quatro anos em seu vestido lilás e fita no cabelo chanel, pai e mãe envolta do corpinho estendido na grama. Amy tinha balançado muito forte e caido com força, na sua mão ficara uma das flores que cobriam a corda que sustentava o balanço.
- Abra os olhos, Amy... - a voz tranquila de seu pai dizia.
- Estão abertos! - Amy os abriu de supetão, e depois deu um largo sorriso.
- Não acredito nisso, filha - a mãe estava brava - Você quer me matar do coração ?
- Seja inteligente mamãe, da altura que eu cai, e nessa posição, não teria como acontecer nada mais grave que um braço quebrado.
- Francamente...
E o pai de Amy ria. Ria da inteligência da sua pequenina. Com quatro anos, Amy já sabia ler e escrever e falava pelos cotovelos, como gente grande. Amy sempre gostou de seu pai, ele era um grande influenciador da leitura e dos bons costumes. Era elegante, culto e refinado, mas muito humilde. Ele era demais para sua mãe, por isso que ele a tinha deixado. Amy só não se conformava com o fato dele não vir buscá-la  em todos esses anos, para um passeio, ele sempre preferiu as cartas. Deve ser por isso que Amy só tratava de assuntos sérios por cartas.
Amy então abriu os olhos. Acordou tonta, sob o efeito ainda do "sonho-memória" . Em tanto tempo, ela sentiu a falta dele, pela primeira vez, que ela se lembre.





domingo, novembro 14

- Ela é incrível.
- Ela quem ? - Amy não entendia.
- Louise. Ela é doce, angelical, meiguinha... meio inocente até, sabe ?
- E desde quando você se apaixona por garotas assim ?
- Eu nunca me apaixonei - Amy estremeceu - Mas quando eu estou com ela, só existe ela... entende ?
- E você me beijou agora por quê...
- Porque amanhã vou pedi-lá em namoro, e não vou nunca mais poder fazer isso.
- Me parece justo - Amy estava revoltada com sí própria.
- Me perdoe. Ela...você vai ver quando conhecê-lá.
Amy sentia seu corpo inteiro se confundir por dentro, seus olhos queriam se encher de lágrimas e ela queria xingar com todos os nomes possíveis todos os seres possíveis, mas ela não poderia demonstrar estar chateada, e este chiliquinho seria infantil demais, então despejou :
- Estou apaixonada por Peter.
- Sério? - ele disse surpreso.
- É claro que é sério.
- Bom...
- Não é sério.
- Posso falar ? - ele assentiu - Ele é um amor, ele é... é ele, e eu estou apaixonada.
- Espero que ele te faça feliz então.
- Qual é, não vamos ficar juntos agora, só porque estou apaixonada.
- Queria saber se mesmo assim, eu posso vir morar aqui contigo.
- Por que não vai morar com ela ?
- Ela mora com os pais. - Ele disse. E Amy sorriu bufando.
- Não seria muito certo.
- Somos adultos. E somos amigos. 
- Certo... venha.
- Quinta feira.
- Está bem. 
Os dois ficaram trocando olhares por alguns instantes, até que constrangido, Bernardo desviou o olhar.
- Amanhã eu tenho que trabalhar, lembra ?
- Ahh... ok, bom, boa noite.
- Boa noite - ela assentiu.
E ele saiu pela porta vermelha, sem ao menos dizer nada, sem dar um abraço, ou mais um beijo, ou qualquer coisa. Ele simplesmente saiu, e deixou Amy parada aonde estava por um longo tempo. Mas ele não sabia que tinha feito isso. Ele nunca sabia o que fazia com ela.
Ela se deitou, finalmente. Olhou ao redor, e pegou instantaneamente no sono.

segunda-feira, novembro 8

Amy estava saindo do escritório para se encontrar com Peter, seu celular tocou. E era o próprio Peter, esbravejando que ela estava doze minutos atrasada. Amy corou e se sentiu lisonjeada.
- Prometo que não passará de quinze minutos de atraso.
- Acho bom - ele ria.
E logo Amy já estava virando a rua que Peter estaria. Ele estava de calça jeans escura e camisa xadrez cinza e preta , ofuscada pela sua jaqueta muito sedutora. Estava com uma rosa na mão, olhando pra ela, enquanto batia os pézinhos, sentada no banco da praça, a espera de Amy. Ela sorriu.
- Que elegância, moço. - Ele ergueu os olhos sorrindo, e ela retribuindo...
- Pra você - ela recebendo a rosa, deu mais um sorriso, tímido dessa vez.
- Muito obrigada, ela é linda.
- Não vá pensar que eu estou tentando te impressionar, e dar uma de romântico pra te conquistar, eu nem sei se você gosta disso, é que eu sou assim e ... - ele tropeçava em suas próprias palavras.
- Vamos caminhar - ela ofereceu o braço, ele aceitou.
E eles caminharam conversando e reparando sempre em coisas pequenas. Como um arbusto que parecia um cavalo, ou uma determinada estrela mais brilhante, nas pessoas e como elas eram. E eram 21:58 quando estavam na porta do apartamento dela.E Amy sorriu ao ver quem estava lá.
- Só pra ver se ele cumpriria o horário - ele riu
- Não sou uma menininha que tem que ser vigiada, Bernardo - ela revirou os olhos
- Quem é ele ?  - Peter perguntou , não entendendo nada.
- Meu amigo.
- O melhor amigo - ele piscou - de-la.
- AAAh sim, muito prazer. - ele ofereceu a mão. Bernardo recusou.
- Pode voltar agora Bernardo, já estou aqui e são exatamente 22h.
Bernardo conferiu no relógio de bolso. Olhou Peter de cima a baixo.
- Quero falar com você, Amy. E não dá pra esperar até quinta, tem que ser agora.
- Certo - Amy virou-se para Peter - Obrigada pela noite ma-ra-vi-lho-sa, eu me diverti muito e espero que possamos fazer isso mais vezes.
- Claro que sim. Boa noite. - Ele a beijou suavemente nos lábios, rápido, frio, um selinho de criança.
Amy sorriu. Bernardo revirou os olhos discretamente. Peter foi andando e acenando.
- Que baba-ca - Bernardo bufou.
- Não fale assim dele.
- Amanhã ele vai estar aqui com uma bandinha e vai fazer uma serenata pra você.
- Para de ser ciumento. - ela deu um tapinha em seu ombro.
Eles riram e subiram as escadas.
Amy já estava acendendo a luz quando Bernardo a abraçou por trás e a virou para dar um suculento e longo beijo. Amy só conseguia continuar de olhos fechados , estremecida, retribuindo o beijo. Mas finalmente ela se soltou.
- O que foi isso ? - Amy dizia nervosa enquanto corria para fechar a porta.
- Eu precisava. (pausa) Assim como preciso de contar uma coisa.
- Pois estou ouvindo.
- Estou apaixonado.
- O que ? - ela disse surpresa. 

sábado, setembro 25

Passado dois dias da última vez que eles haviam se encontrado para ter uma noite de paixão, o telefone finalmente tocou.
- Alô ? - disse Amy suavemente
- Você precisava ver isso aqui.
Ela conhecia sua voz muito bem. Ela tremeu. 
- Isso o que?
- Londres nunca teve um cinza tão brilhante como esse de hoje.
- AAH, isso eu poderia ver da minha janela, esqueceu que eu ainda estou em Londres ?
- Desculpa não ter ligado antes.
- Não se preocupe, nem deu pra sentir sua falta na correria desses dois dias.
MENTIRA. Amy tinha sentido e muita, mas ela nunca confessava. Ás vezes ela se perguntava se isso era a coisa mais certa a se fazer, vai ver que ele nunca se expressava porque ela não se permitia expressar.
- Correria ?
- Tinha umas coisas a fazer.
- Claro... quer sair amanhã ?
- Tenho planos para amanhã, desculpe.
- Que tipo de planos ?
- Vou sair com um amigo.
- Mas amanhã é terça feira!
- E daí? - ela aindava tentava ser fria para esconder sua frustração pela demora do telefonema.
- Você vai trabalhar na quarta, não deveria ficar até tarde fora de casa.
- E qual é a diferença de sair com ele ou com você ?
- Eu sempre te trago em casa ás 22h em dia de semana.
- Não será diferente com ele.
- Então tá - ele desistiu. E Amy odiava quando ele desistia.
Amy surprendentemente não estava se sentindo tentada a dispensar seu amigo por Bernardo, na verdade ela estava muito empolgada para sair com Peter, ela amava sua companhia doce e eles iam simplesmente andar pela cidade e comentar sobre as coisas que veriam.
- Tudo bem com você ? - Amy perguntou.
- Sim, e com você ? - ele prolongou o 'cê'.
- Tudo como sempre.
- Vou desligar. Se divirta amanhã.
- Vou me divertir - ela sorriu.
- Queria te contar uma coisa, na quinta eu passo por aí.
- Quando você vai vir definitivamente pra cá? Não ia ser nesse fim de semana ?
- Eu falo sobre isso também, na quinta.
- Está bem.
- Um beijo, amor.
- Beijo.
Puft. Desligado.
Amy suspirou e retomou o raciocínio , como de costume, Amy trabalhava em casa na segunda e só as terças ia para o escritório. Com o novo escritório teve que abandonar seu trabalho na floricultura, mas ela não o abandonou por completo, trabalhava lá toda quinta de manhã e tirava o resto do dia de folga de tudo.
Para evitar tantas indas e vindas e tantos gastos desnecessários, Bernardo ia se mudar para o quarteirão vizinho, para o apartamento de Amy, que passaria a ser deles. Apesar que agora suas visitas haviam diminuido significativamente. Não eram mais seis dias por semana e duas vezes ao dia, eram três dias, e uma vez só.