- Não com essa roupa.
- Façamos o seguinte : Passamos aonde você mora, você se troca, vamos tomar um café decente, porque afinal, desperdiçamos nosso dinheiro com esses, que a minha camisa e sua pele estão apreciando, então andamos um pouco e depois eu te levo pra casa.
- Acho que posso ir pra casa sozinha, mas obrigada.
- Ok, depois de andarmos por aí, você volta sozinha para casa.
Ele sorriu com o canto dos lábios. Ela sorriu, e em passos tímidos começou a caminhar até a saída da biblioteca.
A noite estava surpreendentemente quente, parecia que Londres nunca tinha estado tão bela. A sincronia era boa, em cada canto.
Amy só olhava pros seus próprios pés , e ao redor, como sempre fazia. Bernardo, só olhava para ela, somente, só-men-te para ela.
- Então - ela finalmente teve coragem pra dizer algo - Você mora por aqui mesmo ? Tenho a impressão de nunca ter te visto antes.
- Recentemente. Eu vim pra cá, faz menos de duas semanas, pro centro, eu quero dizer.
- Então você morava nos lados 'interioranos' de Londres ?
- Digamos que sim , eu era da cidade vizinha, depois me mudei para...o lado interiorano, como você diz, mas cansei, e agora estou aqui.
- Entendo, fincar raízes não é uma coisa boa.
- Exatamente. Nada de fincar raizés, se apegar, e coisa do tipo.
Amy só balançou a cabeça.
- É aqui - Amy apontou para seu prédio, que já era naquela esquina.
- Então vamos.
Amy já sentia saudade da pensão, mas seu novo apartamento era exatamente do jeito que ela sempre quis que fosse : Uma escada estreita, cercada por flores, o hall de entrada com uma única cadeira envelhecida , de almofadas azuis celeste e um pequeno cacto, no canto da parede, ao lado da cadeira.
Porta Branca. Balcão ao lado esquerdo. Atrás do balcão sua cozinha organizadamente bagunçada, seu fogão e geladeira gordinhos e vermelhos. Na sala haviam movéis antigos, uma estante cheia de livros que a separava do quarto. A sala era aconchegante , uma grande televisão. Uma vitrola. Poltrona funda. Abajur. Cortina suace. Caixas, revistas , livros , anotações e bugigangas.
O quarto tinha uma cama grande, cheia de almofadas claras, contrastando com a parede preta que era aonde ficava a janela. Dois criados-mudos com abajures. Um baú na frente da cama. Escrivaninha. Varanda com uma cadeira de balanço. Banheiro com banheira. Closet. Seu gato Donahu em sua caminha de plumas. Telescópio. Um piano velho que Amy mal sabia tocar.Mais livros, mais bugigangas.
- É muito bonito- ele observara cada detalhe, atentamente, e Amy percebeu e gostou disso.
- Obrigada. Sente-se , eu não demoro.
Ele afundou no sofá. E esperou, ainda observando.
- E você ? Não faz muito tempo que se mudou para cá, não é ? - Ele gritava para que Amy pudesse ouvir através da estante coberta por livros. Engraçado que ele tentava achar uma brexa por entre eles, para conseguir espia-lá, mas não encontrou.
_ Pra esse apartamento, uma semana. Pra esse lugar, creio que um pouco mais de dois anos.
- Você não deve ter muitos laços por aqui.
- Ah é ? Como pode saber, espertinho ?
- Você não tem fotos, porta retratos, nem nada do tipo.
- Você é observador - Então Amy saiu de trás da estante, ela usava uma saia rodada vermelha (pra variar) , uma blusa preta discreta e cabelos presos em uma fita vermelha também, de tom mais claro que a saia, mas exatamente do mesmo tom que as sapatilhas - É que eu não gosto de pessoas.
- Temos isso em comum.
- Pronto, agora você não vai querer mais me levar pra cama, ótimo - Amy deu uma voltinha para Bernardo apreciar seu figurino. Que irônico, ele já havia reparado, e muito bem.
- Lolitas me arrepiam. - ele sorriu.
- Você não presta - Amy revirou os olhos.
- Parece que você já pensa ter intimidades comigo.
- Podemos ir ou não ?
- Claro, mocinha.
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